Pobreza de refrigeração: compreenda o conceito e suas implicações

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Calor extremo e pobreza de refrigeração: um desafio global crescente.

Imagine caminhar pela praia de Ipanema numa tarde de verão, com a areia dourada e uma bebida gelada na mão. A poucos metros, a favela do Vidigal abriga milhares de pessoas que enfrentam altas temperaturas em condições adversas, sem acesso a espaços públicos frescos.

Nos subúrbios do Rio de Janeiro, a realidade se repete. Famílias vivem sob temperaturas sufocantes, com calçadas de concreto que irradiam calor mesmo após o pôr do sol. A falta de áreas verdes e de fontes de água potável agrava a situação, tornando o calor extremo uma constante na vida desses moradores.

O problema não é exclusivo do Brasil. No último verão, a Europa também enfrentou ondas de calor, com temperaturas que chegaram a 46,6°C em Portugal e alertas de calor extremo afetando mais de 150 milhões de pessoas nos Estados Unidos. Regiões da Ásia, África Ocidental e América Latina também sofrem com o calor extremo de forma recorrente.

Entretanto, as consequências do calor não são uniformes. Fatores demográficos, infraestrutura urbana e capacidade de adaptação influenciam como diferentes comunidades são afetadas. Um estudo recente revelou que cerca de 600 milhões de pessoas em 28 países, em sua maioria em desenvolvimento, enfrentam uma grave pobreza sistêmica de refrigeração.

Enquanto países como Indonésia e Bangladesh lidam com calor úmido, a infraestrutura mais robusta da Indonésia resulta em menos pobreza de refrigeração. Nas cidades, a vulnerabilidade é moldada por fatores físicos e sociais, com moradores de áreas mais pobres tendo acesso limitado a ar-condicionado, espaços sombreados e moradias adequadas.

A refrigeração não se resume ao uso de ar-condicionado, que é desigual e consome muita energia, elevando os custos das contas de eletricidade e contribuindo para as mudanças climáticas. As condições de vida, como a presença de áreas verdes e a qualidade da infraestrutura, desempenham um papel crucial na vulnerabilidade ao calor.

A experiência de vida das pessoas, incluindo idade, saúde e renda, também determina quem sofre mais com o calor. Em muitos casos, o ar-condicionado substitui práticas tradicionais de convivência com o calor, que, se perdidas, podem aumentar a exposição e a vulnerabilidade das comunidades.

Desde 2020, foram realizadas entrevistas com moradores de subúrbios e favelas do Rio, que relataram como adaptaram suas rotinas para lidar com o calor extremo. As dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência e por grupos marginalizados, como mulheres trans, evidenciam a complexidade da questão, onde o acesso a espaços de alívio se torna um desafio adicional.

A pobreza sistêmica de refrigeração é uma questão que vai além do acesso ao ar-condicionado. Ela envolve a infraestrutura, as instituições e o design urbano que expõem as pessoas ao calor sem proteção adequada. O planejamento urbano, as políticas habitacionais e os sistemas de saúde pública desempenham um papel fundamental na criação de condições que exacerbam a vulnerabilidade ao calor.

Justiça térmica

Repensar a pobreza de refrigeração implica em buscar soluções justas que responsabilizem aqueles cujas decisões de planejamento tornaram algumas áreas mais quentes. A justiça térmica requer uma abordagem integrada que envolva planejamento urbano, saúde pública e regulamentação trabalhista, promovendo acesso a água potável, reforma de edifícios e a criação de áreas verdes.

As vozes das comunidades afetadas são essenciais na formulação de soluções. Suas experiências diárias com o calor extremo podem guiar a identificação de estratégias eficazes para alcançar a justiça térmica e proteger aqueles em maior risco.

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