Reforma Tributária avança sob incertezas para as empresas

Compartilhe essa Informação

Empresas enfrentam incertezas tributárias com a reforma que se aproxima.

Com menos de quatro meses para a implementação do novo sistema tributário, a partir de 1º de janeiro de 2027, as empresas brasileiras se encontram em uma situação paradoxal. Elas precisam finalizar projetos de adequação fiscal, tecnológica e operacional, mas ainda não conhecem a alíquota efetiva que definirá sua nova carga tributária.

A Lei Complementar nº 214/2025 trouxe avanços na regulamentação da reforma, estabelecendo a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), além de um cronograma de transição. Desde janeiro de 2026, as empresas deveriam já estar destacando esses impostos em seus documentos fiscais eletrônicos. No entanto, o prazo foi adiado várias vezes e a fase de testes começou apenas em agosto, gerando incertezas antes da extinção do PIS e da COFINS. A alíquota da CBS ainda está indefinida, e as empresas trabalham com estimativas.

Poucas situações são tão desafiadoras quanto elaborar orçamentos e contratos sem ter clareza sobre a carga tributária. Em setores como serviços, tecnologia e comércio eletrônico, pequenas variações percentuais podem impactar significativamente a rentabilidade. Isso resulta em dificuldades na definição de preços para 2027, renegociações frequentes de propostas comerciais e contratos de longo prazo firmados com desconfiança, enquanto as margens de lucro permanecem sob pressão.

A expectativa da reforma é simplificar o sistema tributário, mas, no curto prazo, o efeito é oposto. As empresas terão que operar com dois sistemas simultaneamente: o atual, que inclui PIS, COFINS, ICMS, ISS e IPI, e o novo, que abrange CBS, IBS e Imposto Seletivo, até a completa transição em 2033. Isso implica recalcular operações de duas maneiras e treinar equipes em um tempo reduzido, algo que normalmente levaria anos.

Outra preocupação central para diretores financeiros é o impacto no fluxo de caixa. O novo modelo prevê um regime abrangente de créditos financeiros que, teoricamente, reduz a cumulatividade. No entanto, essa estrutura só é eficaz se os créditos forem reconhecidos e compensados rapidamente. Qualquer atraso ou divergência entre fornecedor e cliente pode travar créditos e pressionar o capital de giro, especialmente em cadeias de fornecimento longas, onde um erro em um elo pode afetar todo o processo.

O aspecto tecnológico da reforma é frequentemente subestimado. A implementação de CBS e IBS requer alterações significativas nos sistemas de gestão empresarial (ERP) e nos relatórios gerenciais. Muitas empresas ainda estão levantando requisitos, quando já deveriam estar em testes avançados, o que acarreta riscos reais de autuação e perda de créditos.

Um erro comum é ver a reforma apenas sob a ótica tributária. Ela também redesenha modelos de negócio, altera cadeias de distribuição e pode impactar planos de expansão. Aqueles que se limitarem a cumprir as novas obrigações fiscais correm o risco de perder competitividade para aqueles que aproveitam a reforma como uma oportunidade para reavaliar processos e estratégias de mercado.

Com a aproximação do início da operação do novo sistema, o Brasil se prepara para uma das maiores transformações tributárias de sua história. Embora a simplificação prometida ainda esteja por vir, os próximos anos trarão complexidade e riscos operacionais. O verdadeiro desafio das empresas vai além da compreensão de CBS e IBS; trata-se de aprender a operar em um ambiente de incerteza regulatória, onde as regras ainda estão sendo definidas. A reforma tributária se tornou uma questão crucial, não apenas para o departamento fiscal, mas para a sobrevivência e competitividade de todo o negócio.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *