Reprimarização da economia impulsiona o sertanejo, afirma sociólogo

Compartilhe essa Informação

A relação entre sertanejo universitário e agronegócio é explorada em nova obra.

O início do século XXI no Brasil foi marcado pela reprimarização da economia, onde as commodities agrícolas se tornaram protagonistas nas exportações e na movimentação de bens e serviços. Nesse cenário, o sertanejo universitário emergiu, consolidando-se como um fenômeno cultural a partir dos anos 1980, com duplas icônicas como Chitãozinho e Xororó e Zezé de Camargo e Luciano, que popularizaram a figura do cowboy brasileiro em um país em desenvolvimento agrícola.

O recém-lançado livro Sertanejo Universitário, Agronegócio e Indústria Cultural, de Caíque Carvalho, oferece uma análise aprofundada dessa simbiose. O autor, que possui mestrado e doutorado em sociologia pela Universidade Federal da Bahia, é um especialista no tema e traz à tona a intersecção entre o agronegócio e a cultura sertaneja.

Com a expansão das cidades médias, especialmente no Centro-Oeste, o agronegócio passou a exigir mão de obra qualificada, incentivando a criação de instituições de ensino superior nos centros urbanos do interior. Essa demanda veio a moldar o público do sertanejo, que se viu cada vez mais conectado ao ambiente universitário.

A obra destaca o ressurgimento do sertanejo entre os estudantes universitários e aqueles que buscavam ingressar no mercado de trabalho no início dos anos 2000. O gênero musical começou a se afastar das temáticas românticas tradicionais, incorporando letras sobre desapego e celebrações, refletindo as transformações sociais e culturais desse novo público.

O autor também aponta que as políticas públicas implementadas durante os primeiros mandatos de Lula foram cruciais para a inclusão das classes média e baixa no ensino superior, contribuindo para a popularização do sertanejo universitário.

Carvalho observa que muitos dos principais artistas desse subgênero, como João Bosco e Vinicius, eram universitários, com alguns deles até se formando em áreas ligadas ao agronegócio, como Mateus, da dupla com Jorge, e Sorocaba, da dupla com Fernando.

Um marco significativo para o sertanejo universitário, conforme discorrido na obra, é a canção Ai Se Eu te Pego, lançada em 2008 por Michel Teló. O autor analisa as nuances que definem o gênero, incluindo as letras que moldaram sua estética e popularidade.

Os artistas do sertanejo universitário conquistaram espaço nas feiras agropecuárias em todo o Brasil, que se tornaram palcos privilegiados para suas apresentações. Embora a presença do sertanejo em tais eventos remonte a décadas passadas, a atual dominância do gênero nas feiras simboliza a modernidade e a juventude do agronegócio, ao mesmo tempo que reforça suas tradições.

O livro Sertanejo Universitário, Agronegócio e Indústria Cultural é uma contribuição valiosa para compreender a aproximação ideológica entre o sertanejo e o agronegócio neste século, revelando as complexas relações entre cultura e economia no Brasil contemporâneo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *