Santiago Peña em Foco: Dois Episódios Controversos de Espionagem e Conflito com o Brasil
Senado do Paraguai aprova por unanimidade impeachment de Santiago Peña
O Senado do Paraguai decidiu, de forma unânime, aprovar o impeachment do presidente Santiago Peña, marcando um momento significativo na política paraguaia.
Durante seu tempo no cargo, que se estendeu por pouco mais de três anos, Peña enfrentou diversas tensões diplomáticas com o Brasil. Dois episódios em particular se destacaram e geraram repercussões significativas nas relações entre os dois países.
- A primeira situação envolveu a descoberta de uma operação de espionagem hacker que visava autoridades paraguaias.
- A segunda diz respeito a declarações do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre a Guerra do Paraguai, que reabriu feridas históricas e gerou uma nova disputa sobre a devolução de um canhão que foi levado pelo Brasil durante o conflito.
Esses eventos tocaram em questões sensíveis para ambos os países, especialmente no que diz respeito à negociação sobre a energia gerada pela usina de Itaipu e à memória de um dos conflitos mais traumáticos da história paraguaia.
Relembre os episódios a seguir:
Espionagem hacker
Uma investigação revelou que um funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) declarou à Polícia Federal que agentes brasileiros realizaram operações de invasão a sistemas da Presidência da República e do Congresso do Paraguai.
Essas ações incluíram acessos a equipamentos de autoridades que estavam envolvidas nas negociações sobre as tarifas da usina de Itaipu. O objetivo das operações era obter informações sigilosas relacionadas ao Anexo C do Tratado de Itaipu, que define as bases financeiras e as condições para a comercialização da energia produzida pela usina.
A operação teve início em junho de 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, e continuou após a posse de Lula em janeiro de 2023. A Presidência da República e o Ministério das Relações Exteriores confirmaram a operação, afirmando que ela foi encerrada em março de 2023, após o novo governo tomar conhecimento das atividades.
A revelação sobre a espionagem provocou uma reação imediata do governo paraguaio, que convocou o embaixador brasileiro em Assunção para exigir explicações e anunciou a suspensão das negociações sobre a revisão do Anexo C de Itaipu.
Guerra do Paraguai
Em julho de 2026, uma declaração de Lula sobre a Guerra do Paraguai gerou uma nova onda de indignação no governo de Peña. O conflito, que ocorreu entre 1864 e 1870, envolveu o Paraguai e uma aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai, resultando em consequências devastadoras para o Paraguai, que perdeu entre 60% e 70% de sua população.
A declaração de Lula foi recebida com críticas contundentes no Paraguai. O chanceler Rubén Ramírez Lezcano afirmou que o governo paraguaio defenderia a dignidade e os interesses nacionais em resposta às falas do presidente brasileiro.
A Câmara dos Deputados paraguaia também se manifestou, aprovando uma declaração de repúdio às declarações de Lula, considerando que ele minimizou a importância histórica do conflito. Em resposta, o governo paraguaio convocou o embaixador brasileiro para entregar uma nota de protesto diplomático.
Além disso, o documento reiterou uma antiga reivindicação paraguaia pela devolução de troféus de guerra, incluindo o canhão El Cristiano, que está exposto no Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro. Recentemente, informações indicaram que Lula autorizou a devolução do artefato, embora o processo dependa de trâmites diplomáticos entre os dois países.
O El Cristiano, um obuseiro de aproximadamente 12 toneladas, foi fabricado com bronze de sinos de igrejas paraguaias e utilizado pelas tropas do Paraguai durante a guerra. Desde 1870, está sob a posse brasileira e é considerado patrimônio histórico, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A reivindicação pela devolução do canhão não é nova, com o governo paraguaio buscando sua restituição há mais de uma década, considerando-o um símbolo da resistência nacional durante o conflito.