Sergio Moro enfrenta dilema de ser uma candidatura antissistema enquanto depende da máquina pública
Justiça Eleitoral do Paraná impede Sergio Moro de se autodenominar aliado de Ratinho Junior em campanha.
A Justiça Eleitoral do Paraná decidiu, no último sábado, proibir Sergio Moro de afirmar em sua propaganda eleitoral que é aliado do governador Ratinho Junior desde 2018. A medida foi tomada após um pedido do próprio governador, que se mostrou insatisfeito com uma peça publicitária onde Moro o agradecia como “nosso aliado em 2018 e 2022”, além de prometer continuidade em parcerias para obras em todos os 399 municípios do estado.
Na época em que Moro era juiz federal na 13ª Vara Criminal de Curitiba, sua aliança política era considerada “juridicamente e constitucionalmente impossível”, segundo a juíza responsável pela decisão. Apesar da vedação legal, Moro já atuava politicamente enquanto exercia a função de juiz da Lava Jato, o que levanta questões sobre suas intenções e ações durante esse período.
Esse incidente, embora possa parecer pequeno, revela um padrão mais amplo na trajetória pública de Moro. Ele nega sua atuação política como uma estratégia de campanha, mas, na realidade, tem exercido essa função por mais de uma década. Essa negação é, muitas vezes, seletiva e contraditória.
Moro critica a política de outros, como o PT e o que considera a “velha política”, mas não aplica o mesmo escrutínio à sua própria rede de aliados. O comportamento de juiz ainda o acompanha, e suas avaliações morais parecem não considerar sua própria situação, criando uma dinâmica em que ele se coloca acima do debate político.
Político de toga
Um dos slogans de Moro em sua campanha ao Senado pelo Paraná em 2022 era que “ele não é político, mas quer mudar a política”. Desde então, ele ocupa o cargo de senador e mantém um discurso antissistema, criticando a “velha política” enquanto tenta se vincular ao mesmo governador que agora critica.
Esse comportamento reflete uma mentalidade que vê a política como algo a ser evitado, enquanto Moro se comporta como se estivesse acima das disputas políticas. Profissionais que trabalharam com ele relatam um padrão de aversão a parcerias e diálogo, o que contrasta com a necessidade de construir alianças em um ambiente político complexo.
Recentemente, Moro e Deltan Dallagnol foram vistos usando camisetas com frases que reivindicavam a prisão de Lula como um feito conjunto, o que confirma a estreita colaboração entre eles durante a Lava Jato. Essa colaboração, que foi reconhecida pelo STF ao declarar Moro suspeito em um caso envolvendo Lula, evidencia que a acusação e o julgamento foram conduzidos como parte de uma mesma equipe, com foco no PT e não na corrupção em geral.
A régua seletiva de Moro
A seletividade nas críticas de Moro se torna mais evidente quando se considera seu apoio a Flávio Bolsonaro, que está envolvido em um escândalo de negociações financeiras. Flávio foi acusado de transferir grandes quantias de dinheiro para financiar um filme sobre seu pai, mas escapou do escrutínio que Moro aplica a outros políticos.
A contradição na postura de Moro não reside apenas em sua inserção no sistema político, mas na forma como trata a atividade política: como crime quando é dos outros e como virtude quando é dele. Essa dualidade se torna evidente em suas próprias finanças, onde ele justificou o recebimento de auxílio-moradia mesmo tendo casa própria, e sua alta despesa como senador, alegando que estava ouvindo os paranaenses.
À sombra de Ratinho Jr.
As contradições pessoais de Moro refletem um padrão maior em sua candidatura, que se apresenta como estranha ao sistema, mas depende dele para se sustentar. Sem alianças e sem compromisso com o que chama de “Centrão”, sua campanha precisa da popularidade de Ratinho Jr., um governador com alta aprovação.
A trajetória política de Moro tem sido marcada por tentativas frustradas, como sua pré-candidatura à Presidência pelo Podemos, onde nunca conseguiu ultrapassar 9% nas pesquisas. Sua mudança para o União Brasil e, posteriormente, sua candidatura ao Senado pelo Paraná mostram uma série de manobras para se manter relevante no cenário político.
Em 2026, Moro procurou apoio em novas alianças, mas a falta de comprometimento por parte de partidos o deixou em uma posição instável. Sua filiação ao PL, por indicação de Flávio Bolsonaro, e a tentativa de formar coligações com outros
