Terceira via enfrenta série de derrotas e ex-candidatos à presidência focam em eleições estaduais
Polarização política no Brasil impede candidaturas de terceira via de se consolidarem.
Nenhum candidato à Presidência da República que terminou em terceiro lugar conseguiu se eleger presidente em novas tentativas desde a redemocratização em 1989. As alternativas aos dois primeiros colocados, frequentemente chamadas de terceira via, acabaram voltando suas atenções para disputas estaduais.
Em 2026, cinco dos sete presidenciáveis que ficaram em terceiro nas últimas eleições devem se concentrar em disputas regionais. Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) são pré-candidatas ao Senado em São Paulo; Ciro Gomes (PSDB) almeja o governo do Ceará; e Heloísa Helena (Rede) e Anthony Garotinho (Republicanos) pretendem se candidatar a deputados federais pelo Rio de Janeiro.
Outros dois nomes que também ficaram em terceiro lugar em eleições passadas já direcionaram suas atenções para palanques estaduais. Leonel Brizola (PDT) foi eleito governador do Rio de Janeiro após a eleição presidencial de 1989, enquanto Enéas Carneiro (Prona), que ficou em terceiro em 1994, foi o deputado federal mais votado do país em 2002, com 1,5 milhão de votos.
O contexto das candidaturas de Brizola e Enéas difere do atual. Ambos concorreram antes da polarização entre PT e PSDB, que dominou a política brasileira entre 1994 e 2014, e do embate entre PT e bolsonarismo que se intensificou a partir de 2018.
A cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas, observa que a polarização é aceita por muitos políticos, especialmente aqueles que tentaram escapar dela. Ela aponta que, apesar de um sistema multipartidário, o eleitor brasileiro tende a se definir pelo voto útil nas eleições, optando por candidatos que estão melhor posicionados nas pesquisas.
Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, destaca que a ideia de uma candidatura de terceira via é viável como desejo social, mas quase impossível como projeto eleitoral, pois não consegue reunir votos suficientes. Ele compara essa situação a um mercado sem produto.
Nas pesquisas para 2026, o cenário de polarização se repete, com Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) liderando as intenções de voto, ambos com 39% e 35%, respectivamente. Outros nomes, que tentam se posicionar como uma terceira via, aparecem com números bem inferiores, como Ronaldo Caiado (PSD) com 5% e Romeu Zema (Novo) com 4%.
Nos últimos meses, a articulação em torno de um nome alternativo foi liderada por Gilberto Kassab, presidente do PSD, que considerou lançar os governadores do Paraná e do Rio Grande do Sul, Ratinho Junior e Eduardo Leite, respectivamente. No entanto, nenhuma dessas candidaturas parece ter ganhado força. O PSDB ainda convidou Ciro Gomes a tentar novamente a Presidência, enquanto o Avante lançou a pré-candidatura do psiquiatra Augusto Cury.
Adesão
Simone Tebet se apresentou em 2022 como uma alternativa de centro à polarização entre Lula e Jair Bolsonaro. Após terminar a disputa em terceiro lugar, apoiou Lula no segundo turno e foi nomeada ministra do Planejamento após sua vitória.
Embora tenha uma trajetória política voltada para o liberalismo econômico e o agronegócio em Mato Grosso do Sul, Tebet se filiou ao PSB em 2026 para concorrer ao Senado na chapa liderada pelo PT em São Paulo, a pedido de Lula.
Marina Silva, também pré-candidata ao Senado, já foi terceira colocada em duas eleições presidenciais (2010 e 2014), obtendo seu melhor resultado em 2014, com 21,3% dos votos. Ela se distanciou do PT antes de sua primeira candidatura em 2010 e, após passar por outras legendas, fundou a Rede. Em 2022, reconciliou-se com Lula e foi eleita deputada federal, sendo novamente nomeada ministra do Meio Ambiente.
Heloísa Helena, ex-petista e filiada à Rede, se apresentou como uma opção mais à esquerda em 2006, concorrendo pelo PSOL e criticando abertamente o PT. Apesar de suas críticas, uma ala do seu partido apoiou a reeleição de Lula
