Terra pode receber anel semelhante ao de Saturno, mas será artificial

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Projeções de satélites e espelhos orbitais podem transformar o céu noturno.

Os planos para lançar mais de um milhão de satélites e dezenas de milhares de espelhos orbitais têm o potencial de alterar permanentemente a aparência do céu noturno. Essa mudança, que antes parecia ficção científica, agora é considerada uma possibilidade real com o avanço dos projetos de data centers espaciais.

Se esses projetos forem implementados, a Terra poderá apresentar um “anel de Saturno” artificial, visível em qualquer lugar do planeta durante horas após o pôr do sol e antes do amanhecer. Especialistas afirmam que esse anel seria formado por satélites alinhados em uma única órbita, criando uma faixa luminosa que superaria o brilho de estrelas, planetas e até mesmo da Lua cheia.

Hugh Lewis, professor de astronáutica da Universidade de Birmingham, destaca que a única maneira de acomodar o grande número de constelações propostas é empilhá-las em uma órbita específica, localizada na linha do terminador, onde o dia encontra a noite. Segundo ele, ao olhar para o céu, os satélites estariam todos em um único plano, causando um impacto visual devastador no céu noturno.

A corrida pelo desenvolvimento de data centers orbitais ganhou força recentemente, levando diversas empresas a solicitar autorização para lançar grandes constelações de satélites. Entre essas empresas estão SpaceX, Starcloud, Cowboy Space, Orbital e Blue Origin, com projetos que, somados, ultrapassam a marca de um milhão de satélites.

A China também se juntou à competição, planejando desenvolver sua própria rede de data centers orbitais nos próximos cinco anos. A empresa Reflect Orbital, da Califórnia, pretende lançar 50 mil espelhos espaciais para refletir luz solar em usinas de energia solar na Terra durante a noite. Recentemente, a companhia recebeu autorização para operar seu primeiro espelho orbital, com lançamento previsto para este ano.

Lewis explica que tanto os data centers orbitais quanto os espelhos espaciais precisam de iluminação solar contínua, o que exige que permaneçam em uma órbita que siga a linha do amanhecer e do anoitecer. Essa configuração é diferente da megaconstelação Starlink, que distribui satélites ao redor da Terra.

A astrônoma Samantha Lawler, da Universidade de Regina, também compartilha preocupações sobre o impacto visual dessas constelações. Modelagens computacionais realizadas por ela indicam que os satélites visíveis da superfície terrestre não apenas obscureceriam parte das estrelas, mas também poderiam superá-las em número.

Com a rotação da Terra, o anel artificial cruzaria o céu duas vezes ao dia, gerando um efeito mais intenso durante o inverno. As simulações mostram que a luz do anel poderia permanecer visível por até duas horas após o pôr do sol, comprometendo a eficácia dos telescópios e a realização de pesquisas científicas, como a busca por asteroides perigosos.

As constelações propostas, como o Project Sunrise da Blue Origin, poderiam utilizar diferentes inclinações orbitais, criando padrões visuais distintos no céu. A intensidade luminosa do anel dependerá do número efetivo de satélites em órbita, com cada espelho da Reflect Orbital possuindo brilho semelhante ao de Vênus, o objeto mais brilhante do céu noturno após a Lua.

Estudos anteriores indicam que uma constelação com 50 mil espelhos poderia aumentar em até 300% o brilho do céu noturno, tornando certos telescópios quase inutilizáveis. Para John Barentine, defensor do céu escuro, a humanidade já alterou significativamente o ambiente espacial, e projetos como o da Reflect Orbital transformarão esses anéis invisíveis em faixas brilhantes, afetando profundamente as condições de observação astronômica.

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