Terrabras apresenta propostas inovadoras e controversas
Ofensiva do capital norte-americano ameaça controle das terras raras no Brasil.
Iniciou-se, nas últimas semanas, uma nova fase da ofensiva do capital norte-americano sobre as terras raras brasileiras, envolvendo grandes mineradoras, a Embaixada dos Estados Unidos e parlamentares favoráveis ao setor. Essa articulação busca garantir o domínio sobre a segunda maior reserva mundial desses minerais, enquanto movimentos populares e uma parte do governo lutam pela criação de uma estatal, a Terrabras, para controlar esses recursos estratégicos.
No dia 20 de abril, a USA Rare Earth anunciou a aquisição da mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, Goiás. A Serra Verde é responsável pela mina Pela Ema, um dos poucos depósitos de argilas iônicas de terras raras fora da Ásia que pode produzir em escala os elementos necessários para a fabricação de ímãs permanentes. A venda, embora realizada por uma empresa já de propriedade estrangeira, reflete uma estratégia de controle do Estado americano sobre recursos críticos, com a USA Rare Earth atuando como um instrumento de política pública dos EUA.
Em janeiro de 2026, a empresa firmou uma carta de intenções com o governo dos EUA, garantindo acesso a 1,6 bilhão de dólares em financiamento público para acelerar a cadeia de valor dos minerais críticos. Esse aporte foi recebido com entusiasmo pela CEO da empresa, que agradeceu diretamente ao governo americano, evidenciando a conexão entre interesses privados e políticas estatais.
Além disso, a Serra Verde recebeu um financiamento de 565 milhões de dólares da DFC, uma agência do governo dos EUA que financia investimentos em países em desenvolvimento, alinhados aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. O pacote inclui um contrato de compra garantida por 15 anos, que assegura a exportação dos produtos da mineradora para os EUA, sem compromissos de internalização de processos de refino no Brasil.
A ofensiva do governo Trump é apoiada por uma rede de comunicação que promove a narrativa favorável à abertura do setor mineral e à resistência à criação de uma estatal. Reportagens e colunas em grandes meios de comunicação têm desqualificado a proposta da Terrabras, apresentando-a como um retrocesso que afastaria investidores e ignorando vozes contrárias que defendem o controle estatal sobre os recursos.
O projeto de lei 2780/2024, que estabelece a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, está em tramitação no Congresso e enfrenta resistência, especialmente em relação à criação da Terrabras. O relator do projeto já se manifestou contra a estatal, defendendo a continuidade do controle estrangeiro sobre o setor, o que levanta preocupações sobre a falta de investimento em ciência e tecnologia para desenvolver uma cadeia de valor nacional.
A família Bolsonaro tem se alinhado aos interesses dos EUA, como evidenciado por declarações do senador Flávio Bolsonaro, que promoveu o Brasil como uma solução para a dependência americana de minerais críticos. Essa postura coloca os recursos minerais brasileiros em risco, oferecendo-os como moeda de troca nas relações internacionais.
É irônico que a recusa do Estado em participar ativamente da exploração das terras raras favoreça mineradoras estrangeiras que operam sob a proteção de seus governos. A ideia de que o Estado deve ser apenas um regulador, enquanto permite que os EUA atuem como financiador e regulador na prática, revela uma contradição nas alegações de soberania e controle nacional.
Enquanto o capital estrangeiro avança, a resposta da esquerda e do governo federal é hesitante e fragmentada. Embora haja iniciativas legislativas em prol da criação da Terrabras e outras ações de agitação, a falta de uma estratégia coesa e assertiva para a defesa dos recursos minerais é evidente. O governo tem tratado as terras raras como uma moeda de troca nas negociações com os EUA, o que representa um erro estratégico significativo.
O governo Lula, ao não priorizar a questão das terras raras, continua refém de uma narrativa que deslegitima a intervenção estatal e exalta o setor privado. A exploração desses recursos deve ser uma questão de interesse nacional, e a constituição brasileira já estabelece que os bens minerais pertencem à União, permitindo intervenções quando necessário para proteger os interesses nacionais.
O cenário atual aponta para a possibilidade de entrega de um patrimônio estratégico ao capital estrangeiro, o que reforçaria a posição do Brasil como uma economia primário-exportadora, perpetuando a subordinação na divisão internacional do trabalho.
