Tom Jobim completa 100 anos de legado musical
Tom Jobim e sua trajetória de sucesso na música brasileira e internacional.
No final de 1966, um garçom do bar Veloso, em Ipanema, interrompeu a conversa de Tom Jobim para avisá-lo de que havia um “gringo” ao telefone. Jobim, que costumava consumir dez copos de chope por dia, atendeu a ligação e ficou surpreso ao ouvir a voz de Frank Sinatra, que o convidava para gravar um disco.
Após momentos de incredulidade, Jobim percebeu que essa oportunidade não poderia ser uma pegadinha. Desde o início dos anos 1960, a bossa nova havia conquistado o mundo, colocando-o no radar de diversos músicos internacionais. “Perfeitamente, é uma ordem”, respondeu Jobim, que logo embarcou para Miami, marcando mais um capítulo de sua carreira internacional.
O sucesso de Jobim começou antes, por acaso. Em 1956, ele foi apresentado a Vinicius de Moraes em uma mesa de bar, onde o poeta buscava um músico para musicar sua peça “Orfeu da Conceição”. Naquela época, Jobim, um jovem pianista de 29 anos, tocava em boates de Copacabana para pagar suas contas. Durante as tardes, ele e Vinicius se divertiam tomando chope e ouvindo jazz.
Em 1958, a parceria entre Jobim e Vinicius resultou no álbum “Chega de Saudade”. Vinicius enfrentou dificuldades para escrever a letra, confessando em uma crônica que nunca havia passado por algo tão desafiador. Elizeth Cardoso foi a primeira a gravar a canção, acompanhada por João Gilberto, que a ensinou a cantar de seu jeito característico.
O impacto daquela gravação foi monumental, comparado a um evento histórico. As sessões de gravação, no entanto, não foram fáceis, devido ao perfeccionismo de João Gilberto, que exigia a mais alta qualidade em cada detalhe. O resultado foi uma canção que se tornaria um marco na música brasileira.
A lenda de “Garota de Ipanema” é uma das mais conhecidas da música brasileira. Jobim e Vinicius, enquanto estavam no bar Veloso, avistaram Helô Pinheiro passando. Embora a canção tenha se tornado sinônimo do local, a composição real ocorreu em outro espaço, onde Jobim criou a melodia e Vinicius escreveu a letra posteriormente.
O sucesso de “Garota de Ipanema” foi um dos fatores que levaram Jobim a receber o telefonema de Sinatra. O disco foi gravado em Hollywood e se destacou por ser o primeiro dedicado a um único compositor. Tornou-se um sucesso estrondoso, alcançando o segundo lugar nas paradas americanas.
A parceria entre Jobim e Sinatra continuou, mas enfrentou desafios. Jobim ficou frustrado com os constantes adiamentos para o segundo disco, que só foi finalizado em 1969. A relação entre os dois músicos foi marcada por momentos de descontração, mas também por divergências criativas.
Uma anedota famosa sobre Jobim revela sua personalidade descontraída. Em 1964, ele teria se embriagado antes de visitar o renomado compositor Cole Porter, alegando que “com mito não se brinca”. Trinta anos depois, Jobim faleceu no mesmo hospital onde Porter esteve internado.
Após sua morte, Ivan Lessa fez uma comparação emocional, destacando a singularidade de Jobim em contraste com a fama de Sinatra. Jobim era acessível e sociável, enquanto Sinatra mantinha uma aura de exclusividade. A mesa que Jobim frequentava na churrascaria Plataforma se tornou um local de lembranças e homenagens após sua partida.
Jobim faleceu em 8 de dezembro de 1994, em Nova York. Seu amigo Jânio de Freitas descreveu sua personalidade calorosa e sua luta silenciosa contra problemas de saúde. No dia seguinte, seu caixão passou pela Plataforma, onde amigos e admiradores se reuniram para prestar suas últimas homenagens, refletindo o impacto duradouro de sua música e de sua presença na cultura brasileira.