Veterinário, jurista, psicanalista e jardineiro se reúnem anualmente como mestres secretos do rearmamento na Europa
Rearmamento na Europa: Herdeiros de uma indústria centenária preparam-se para lucrar com a nova era militar.
Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o Império Alemão estabeleceu o Departamento de Matérias-Primas de Guerra, que coordenava empresas privadas para apoiar o esforço bélico. Essa iniciativa representou uma das primeiras experiências modernas de economia de guerra, unindo a indústria, o capital privado e o Estado.
Mais de um século depois, a Europa recorre novamente a essas dinastias industriais para fortalecer sua capacidade militar. O contexto atual, marcado pela invasão da Ucrânia pela Rússia, fez com que o rearmamento europeu se tornasse uma prioridade, levando a um aumento significativo nos orçamentos militares.
Um grupo peculiar se reúne anualmente em um hotel corporativo na Alemanha, composto por profissionais de diversas áreas, como veterinários, advogados e acadêmicos. Embora pareçam não ter nada em comum, todos são acionistas da Wegmann, que controla metade da KNDS, a gigante franco-alemã responsável pelos tanques Leopard 2 e Leclerc. Esses acionistas, antes invisíveis, estão prestes a fechar um negócio que poderá torná-los multimilionários.
A KNDS está se preparando para uma oferta pública inicial (IPO) com uma avaliação estimada entre 15 bilhões e 20 bilhões de euros. O plano envolve uma complexa reorganização, onde o Estado alemão pretende adquirir quase 40% da participação privada, enquanto a França também reduzirá sua participação para manter o equilíbrio entre os dois países.
As ações restantes serão lançadas no mercado, refletindo um movimento que é tanto industrial quanto político. Desde a invasão da Ucrânia, a KNDS se tornou um pilar do rearmamento europeu, e Berlim deseja garantir influência sobre essa empresa fundamental para a defesa do continente.
Os proprietários da KNDS já começaram a colher os frutos do aumento dos orçamentos militares. Em novembro, foi distribuído um dividendo especial de 1 bilhão de euros, e espera-se um novo pagamento antes do IPO. Os dividendos anuais quase dobraram desde 2021, e a receita da empresa disparou, refletindo o impacto do rearmamento na economia das famílias acionistas.
A história da Wegmann remonta a 1882, quando a empresa fabricava vagões ferroviários. Com o tempo, a companhia se voltou para a indústria de defesa, fabricando tanques durante as grandes guerras e integrando-se à máquina industrial do Terceiro Reich. Após a Segunda Guerra Mundial, a empresa retornou ao setor ferroviário, mas foi trazida de volta ao ramo militar com o rearmamento da Alemanha Ocidental em 1955.
Uma parte significativa da estrutura acionária da Wegmann permanece nas mãos dos descendentes de August Bode, um industrial que adquiriu participação na empresa em 1912. A figura central, Felix Bode, e seu irmão Stephan, podem receber uma quantia significativa com a avaliação máxima do IPO, mas a família enfrenta desafios em manter o legado industrial.
A família von Braunbehrens, outra importante acionista, é conhecida por sua linhagem intelectual. Sua participação na Wegmann Holding, consolidada em uma fundação beneficente, poderá gerar dividendos substanciais, levantando questões sobre como o dinheiro do rearmamento pode financiar pesquisas acadêmicas.
A trajetória da KNDS não foi sempre ascendente. A fusão entre a divisão alemã e a francesa em 2015 foi uma medida defensiva para evitar a aquisição por concorrentes. No entanto, a guerra na Ucrânia revitalizou a demanda por tanques, colocando a KNDS no centro do debate sobre a defesa europeia.
Enquanto governos europeus aumentam os gastos militares, um grupo de herdeiros discretos se prepara para lucrar com essa nova era. Eles são descendentes de uma linhagem industrial que sobreviveu a mais de um século de conflitos, e agora, com o rearmamento, sua herança antiga ganha novo valor.
Dentro da KNDS, muitos percebem que essa venda pode marcar o fim de uma era. As gerações mais jovens não sentem o mesmo vínculo com a empresa que seus antecessores. O que começou como um negócio familiar de vagões ferroviários evoluiu para uma fabricante de tanques, agora integrada ao esforço europeu de reconstrução militar, enquanto os herdeiros, antes anônimos, estão prestes a colher os frutos dessa história.
