França realiza impressionante obra de engenharia com 18 silos escavados a 30 metros de profundidade para mísseis nucleares
Instalação secreta de mísseis nucleares na Provença revela história de dissuasão e transformação.
Sob os campos de lavanda e a vegetação rasteira da Provença, na França, uma instalação secreta permaneceu oculta por um quarto de século. Trata-se de 18 enormes silos escavados na rocha, cada um com cerca de nove metros de diâmetro e 30 metros de profundidade, protegidos por portas de concreto de 145 toneladas. Esses silos abrigavam mísseis nucleares prontos para serem lançados contra a Europa Oriental em caso de ataque à França.
O Plateau d’Albion foi escolhido por seu subsolo calcário, que facilitava a escavação e oferecia a resistência necessária para suportar impactos pesados, além de estar fora de zonas sísmicas. A construção começou em 1966, mobilizando mais de mil trabalhadores e demandando a criação de novas estradas, abastecimento de água e cerca de 120 quilômetros de linhas de energia para um complexo que cobria aproximadamente 800 quilômetros quadrados entre Vaucluse, Drôme e Alpes-de-Haute-Provence.
A instalação era parte da força de dissuasão nuclear da França, concebida durante a presidência de Charles de Gaulle. O objetivo era garantir que, se a França fosse atacada com armas nucleares, os mísseis estivessem prontos para retaliar. Cada arma era suspensa dentro de seu silo por um sistema de absorção de impacto, projetado para resistir à onda de choque de uma explosão. Nos últimos anos de operação, os mísseis eram equipados com ogivas termonucleares de megaton e tinham capacidade de atingir alvos a mais de 3,5 mil quilômetros de distância.
O sistema de controle era ainda mais secreto, com dois postos de comando que supervisionavam nove silos cada. Esses postos estavam protegidos sob centenas de metros de rocha e conectados ao exterior por túneis de quase dois quilômetros, projetados para resistir a explosões nucleares. Dentro, dois oficiais mantinham vigilância 24 horas por dia, necessitando operar chaves simultaneamente em consoles separados para iniciar um lançamento, evitando que um único indivíduo pudesse disparar um míssil.
O sistema permaneceu em alerta constante de agosto de 1971 até setembro de 1996. O paradoxo da dissuasão era que, embora a França houvesse investido pesadamente em um sistema de lançamento de armas nucleares, o sucesso da dissuasão dependia do fato de que essas armas nunca precisassem ser utilizadas. Durante 25 anos, os silos permaneceram prontos, mas nenhum míssil foi lançado.
Com o fim da Guerra Fria, em 1996, Jacques Chirac decidiu que o componente terrestre havia perdido sua importância estratégica, considerando que a modernização seria muito cara. Em 16 de setembro daquele ano, o estado de alerta foi encerrado e o desmantelamento da instalação começou. A maioria dos locais de lançamento foi aterrada e coberta, enquanto a França direcionou sua estratégia de dissuasão nuclear para submarinos e aeronaves.
Um dos antigos postos de comando em Rustrel, no entanto, teve um destino diferente. Seus túneis e blindagem eletromagnética se mostraram ideais para a criação do Laboratoire Souterrain à Bas Bruit (Laboratório Subterrâneo de Baixo Ruído), onde atualmente são realizadas pesquisas para detectar sinais sísmicos, geológicos ou eletromagnéticos extremamente fracos.
O local que foi projetado para permitir que dois homens lançassem uma retaliação nuclear após um ataque acabou servindo para um propósito completamente oposto: captar alguns dos sinais mais silenciosos do planeta.
