Café: da bebida demonizada a fenômeno dos best-sellers de autoajuda cristã
O fenômeno do café na literatura religiosa e suas implicações culturais
O café, mais do que uma bebida, se tornou um símbolo de conexão e espiritualidade na literatura brasileira contemporânea. A popularidade de livros que associam o ato de tomar café a momentos de reflexão e devoção tem crescido significativamente.
As prateleiras das livrarias revelam um crescente número de títulos que exploram essa temática. O sucesso do livro Café com Deus Pai, de Junior Rostirola, abriu caminho para uma série de obras que utilizam o café como um elemento central em suas mensagens espirituais. Títulos como Café com Nossa Senhora e Café com Exu demonstram a versatilidade do conceito, atingindo diversas crenças e tradições.
A ideia por trás dessa associação é simples: “tomar um café” representa um momento de encontro íntimo, seja com amigos ou consigo mesmo. Essa pausa na rotina é vista como uma oportunidade para reflexão e conexão com o divino. Além disso, muitos veem uma relação lúdica entre as palavras “café” e “fé”, que se entrelaçam na cultura popular.
Historicamente, a relação entre o café e a religiosidade no Brasil nem sempre foi harmoniosa. Embora hoje seja amplamente aceito, o café já enfrentou resistência por parte de algumas denominações religiosas. A Igreja Católica, por exemplo, considerou a bebida como “vinho do diabo” em épocas passadas, refletindo a desconfiança em relação ao seu consumo.
Uma breve história do café
A origem do café remonta ao século 6, com uma lenda que envolve um pastor de cabras na Etiópia que notou os efeitos estimulantes da planta em seu rebanho. Os registros históricos indicam que a torrefação do café começou no século 14, quando monges da Igreja Ortodoxa Etíope descobriram o aroma agradável do fruto tostado.
O café se espalhou pela África e, no século 15, tornou-se popular entre os muçulmanos sufistas no Iémen, que o utilizavam para se manterem acordados durante longas orações. O termo árabe para café, “qahwah”, significa vinho, uma referência às suas propriedades estimulantes, que foram aceitas como uma alternativa ao álcool, proibido pelo islã.
O café chegou à Europa no século 16, trazendo consigo uma série de debates sobre sua aceitação. Inicialmente, a bebida foi vista com desconfiança por cristãos, mas a resistência diminuiu após o papa Clemente 8º “batizá-la”, tornando-a aceitável para os católicos e contribuindo para sua popularização no Ocidente.
Proibições e aceitação
Apesar de sua aceitação crescente, o café ainda enfrenta restrições em algumas tradições religiosas. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias proíbe o consumo de café, enquanto a Igreja Adventista do Sétimo Dia recomenda evitá-lo, devido às suas propriedades estimulantes e ao potencial de dependência.
Essas proibições refletem um desejo de promover a saúde e o bem-estar entre os fiéis. Entretanto, mesmo entre os adventistas, há uma apreciação pela metáfora do café como um símbolo de acolhimento e proximidade nas relações interpessoais e na espiritualidade.
Café com…
O autor Junior Rostirola, que já era um pastor conhecido antes do sucesso de seu livro, explica que o café representa um momento de pausa e conversa com Deus. Ele acredita que o sucesso de sua obra não se deve apenas ao tema, mas à sua capacidade de tocar o coração das pessoas e incentivá-las à reflexão.
O fenômeno do “café com” se expandiu, gerando interesse em outros autores e editoras. Livros que exploram a espiritualidade de maneira semelhante têm surgido, como Doses de Cura, que, embora não mencione café no título, utiliza a metáfora de doses para falar sobre a espiritualidade e o cuidado emocional.
Além disso, o psicólogo Rubens Oliveira lançou Café com Exu, buscando preencher uma lacuna na literatura de autoconhecimento a partir de tradições afro-brasileiras. O título reflete a ideia de um encontro e uma conversa franca sobre a vida, utilizando o café como símbolo de acolhimento.