Clima, crédito e seguro como novos riscos estruturais no agronegócio
O clima se torna um fator crítico na concessão de crédito e seguro no agronegócio.
O clima deixou de ser apenas uma variável e passou a ser um fator central na preocupação dos produtores. O receio vem da escassez na concessão de crédito e do encarecimento na precificação de seguros rurais no Brasil.
Entre 2020 e 2023, o número de eventos climáticos extremos no Brasil aumentou significativamente. Esse crescimento está diretamente relacionado aos prejuízos causados, que totalizam R$ 180 bilhões, com cerca de metade concentrada no agronegócio. Essa escalada de eventos climáticos está mudando a lógica de concessão de crédito rural.
As instituições financeiras agora consideram não apenas o histórico de produção, mas também a previsão climática e a gestão de risco na hora de avaliar um tomador de crédito. Fatores como fenômenos climáticos, incluindo El Niño e La Niña, afetam a produtividade e, consequentemente, a capacidade de pagamento dos produtores.
Nesse contexto, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) ganha especial relevância. O calendário de plantio definido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária não é uma recomendação técnica genérica, mas um parâmetro que pode determinar a cobertura do seguro rural. Se o produtor planta fora da janela oficial e a lavoura é afetada por um evento climático, a seguradora pode negar a indenização.
A jurisprudência dos tribunais tem validado a exclusão de cobertura por descumprimento do ZARC, desde que a condição esteja expressamente na apólice e o segurado declare conhecimento das recomendações do MAPA. O entendimento predominante trata o zoneamento como um instrumento de política agrícola, e não como mera orientação técnica.
Ainda assim, a validade da cláusula não exime a seguradora de comprovar tecnicamente que o zoneamento foi de fato descumprido no caso concreto.
Além disso, em 2026, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) enfrentou cortes significativos, reduzindo o orçamento do programa para cerca de R$ 473,8 milhões, um valor inferior ao executado em 2025. Essa redução eleva o custo do seguro para os produtores, especialmente em um momento em que a instabilidade climática torna a cobertura mais necessária.
Diante desse cenário, o seguro paramétrico ganha espaço. Essa modalidade dispensa vistoria de campo e aciona indenização com base em gatilhos climáticos objetivos, monitorados por dados de satélite. Exemplo disso são os critérios de seca no Nordeste ou excesso de chuva e granizo no Sul do país.
Um estudo recente mostrou que o número de contratos de seguro paramétrico no Brasil aumentou consideravelmente, passando de quatro em 2021 para 171 em 2024, com R$ 21,6 milhões segurados. No entanto, a efetividade desse modelo depende de uma base de dados meteorológicos robusta e histórica, que ainda é deficiente no Brasil.
O seguro paramétrico, os ajustes na análise de crédito e a jurisprudência sobre o ZARC são respostas pontuais a um problema estrutural: o sistema de proteção do agronegócio brasileiro ainda depende fortemente de subvenção pública instável, em um cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes.
Prova disso é a revisão das projeções do mercado de seguro rural para 2026, que passou de expectativa de crescimento para uma queda nominal de 3,9%. Essa situação não decorre da falta de necessidade, mas sim da falta de acesso. Nenhuma inovação de mercado consegue substituir a lacuna deixada pelo Estado na proteção do produtor rural.
