Crise do petróleo impulsiona a transição elétrica global
China lidera a transição energética global em meio à crise de combustíveis fósseis.
Com a crescente preocupação mundial sobre a escassez de combustíveis fósseis, a China destaca-se como um líder no setor de energias renováveis. As ações da fabricante de baterias CATL dispararam 29,5% na bolsa de Hong Kong desde o início do conflito no Oriente Médio. A empresa BYD, conhecida por seus veículos elétricos, registrou um aumento de 65% nas vendas internacionais em março, em comparação ao ano anterior.
Esse aumento nas vendas não é um fenômeno isolado, mas parte de uma tendência crescente. Em 2022, as exportações de painéis solares da China para a África aumentaram em 48%, enquanto as vendas de veículos elétricos cresceram 27% e as de turbinas eólicas quase 50%. A demanda por energias renováveis está sendo impulsionada não apenas por questões climáticas, mas também pela necessidade de segurança energética em um contexto de escassez de combustíveis na Ásia.
Países como a Indonésia e as Filipinas estão tomando medidas significativas para aumentar sua capacidade de energia solar. O presidente indonésio anunciou planos para construir 100 gigawatts de energia solar nos próximos dois anos, enquanto as Filipinas oferecem empréstimos estatais para a instalação de painéis solares em residências.
Enquanto o Ocidente discute alternativas, a China já está muito à frente, controlando mais de 80% da produção global de tecnologias renováveis. Empresas como CATL e BYD estão expandindo suas operações internacionalmente, com 68 fábricas já anunciadas ou em construção fora da China, investindo mais no exterior do que em sua terra natal.
A ascensão dos “eletroestados”
O cenário geopolítico global está em transformação, com uma competição crescente entre os tradicionais “petroestados”, como os EUA, e os emergentes “eletroestados”, liderados pela China. Este país é responsável por mais de 70% da produção de hardware verde no mundo, colocando-se em uma posição vantajosa no novo mercado energético.
Com a indústria solar chinesa excluída dos mercados ocidentais por políticas protecionistas, a África tem se tornado um novo alvo para suas exportações. No ano passado, fabricantes chineses enviaram 18,8 gigawatts de painéis solares para o continente. Esse movimento não apenas fortalece a posição da China como superpotência, mas também pode alterar o equilíbrio do poder econômico global, com a possibilidade de o “petrodólar” perder espaço para o “petroyuan” nas transações internacionais.
Apesar de seu domínio, a China enfrenta desafios. Na África, a tecnologia acessível é bem-vinda, mas há preocupações sobre a criação de uma nova dependência econômica. Especialistas alertam que, enquanto os países africanos veem a China como uma solução, Pequim pode vê-los como um mercado para sua capacidade industrial excedente.
No Ocidente, a desconfiança em relação à China está aumentando. O Reino Unido vetou recentemente a construção de uma fábrica de turbinas eólicas por uma empresa chinesa, citando preocupações de segurança nacional. Simultaneamente, a administração anterior dos EUA reverteu incentivos à energia verde, priorizando combustíveis fósseis para evitar dependência de fornecedores estrangeiros.
A China, embora seja líder em energias renováveis, ainda depende de importações para 78% do petróleo que consome, com o Golfo Pérsico fornecendo quase metade dessas importações. O aumento dos preços do petróleo tem gerado impactos significativos, elevando custos em setores essenciais e reduzindo a competitividade.
Uma escolha geopolítica
A dependência global de combustíveis fósseis torna a transição energética uma questão de sobrevivência econômica. A crise provocada pela guerra no Irã ilustra que a resiliência energética é um motor crucial para a mudança global. A transição para energias limpas não é motivada apenas por questões ambientais, mas também por uma busca por maior autonomia energética.
Entretanto, a adoção de tecnologias renováveis implica uma escolha geopolítica. A transição energética não é mais uma simples decisão entre combustíveis fósseis e renováveis; agora, a dependência em relação à China pode definir a capacidade de descarbonização de um país, transformando um debate ambiental em uma questão central da política global na próxima década.
