El Niño pode converter a Amazônia de aliada em adversária do clima, revela estudo
A Amazônia enfrenta riscos crescentes de se tornar uma fonte de carbono devido a mudanças climáticas.
A Amazônia, reconhecida por armazenar aproximadamente 123 bilhões de toneladas de carbono, é um dos ecossistemas mais importantes do mundo. No entanto, essa vasta reserva natural pode se transformar em uma ameaça ao clima global, especialmente durante eventos climáticos extremos.
Durante episódios intensos de El Niño, as florestas tropicais da América do Sul podem deixar de absorver dióxido de carbono (CO₂) e, em vez disso, começar a liberar carbono na atmosfera. Essa mudança drástica no comportamento das florestas é motivo de preocupação crescente entre os cientistas, principalmente com o recente anúncio de um novo El Niño em desenvolvimento, que pode tornar 2026 o ano mais quente já registrado.
As florestas tropicais desempenham um papel crucial na absorção de CO₂ através da fotossíntese, convertendo-o em biomassa. No entanto, esse processo é sensível a fatores como temperatura e disponibilidade de água. Em condições de calor excessivo e seca, as plantas fecham os estômatos das folhas para evitar a perda de água, o que compromete a absorção de CO₂ e, consequentemente, a fotossíntese. Quando essas árvores enfrentam estresse climático, a liberação de carbono armazenado ocorre durante a decomposição, um processo que pode se estender por várias décadas.
Durante o El Niño de 2015-2016, as florestas tropicais da América do Sul já mostraram sinais alarmantes, com algumas áreas parando efetivamente de absorver carbono devido a temperaturas que ultrapassaram a média em pelo menos 1°C.
Para investigar esses fenômenos, pesquisadores monitoraram mais de 500 mil árvores em seis países sul-americanos ao longo de 30 anos. Utilizando fitas métricas, eles avaliaram o crescimento de mais de 4.000 espécies diferentes, permitindo estimativas precisas do carbono armazenado na biomassa acima do solo. Os dados revelaram que as florestas nas bordas da Amazônia, que enfrentam períodos regulares de escassez hídrica, foram as mais afetadas. Um aumento de apenas 0,5°C na temperatura resultou em uma perda média de 0,5% do carbono acima do solo nessas áreas.
A mortalidade de árvores nas florestas tropicais sul-americanas aumentou de 1,8% para 3% ao ano durante o El Niño, com árvores médias e grandes apresentando taxas de mortalidade que dobraram. Árvores maiores, especialmente aquelas com madeira menos densa, mostraram uma mortalidade desproporcional em comparação com árvores menores e aquelas com madeira mais densa. Esse fenômeno é atribuído à falha hidráulica, onde a alta demanda de umidade resulta na ruptura da coluna de água interna da árvore.
A preocupação com 2026 é acentuada por fatores climáticos sem precedentes. Este El Niño se inicia com oceanos e temperaturas do ar já elevados, e as bordas da Amazônia têm experimentado algumas das temperaturas mais altas e o aquecimento mais rápido nos trópicos nas últimas três décadas. Quando um evento climático extremo ocorre antes que a floresta tenha a chance de se recuperar do estresse anterior, sua estrutura e integridade ficam comprometidas, aumentando o risco de perda de árvores e carbono em escalas alarmantes.
A conclusão dos pesquisadores é clara: o futuro da Amazônia e, por extensão, do clima global, depende das ações que tomarmos agora. A situação exige atenção e medidas urgentes para preservar esse ecossistema vital.
