Em 1987, captura do último condor livre marcou tentativa de evitar extinção, mas salvar espécies não é suficiente
Quase 40 anos após a captura do último condor-da-califórnia, a recuperação da espécie mostra desafios na conservação da biodiversidade.
Há quase quatro décadas, a captura do último condor-da-califórnia que voava livre marcou um triste capítulo na história da conservação. Essa ação, embora motivada por um desejo de salvar a espécie, resultou na sua extinção na natureza. Desde então, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA iniciou um programa de recuperação que, até o final do ano passado, fez a população de condores ultrapassar 600 exemplares, com cerca de 400 vivendo em liberdade.
No entanto, esse esforço de recuperação não foi fácil e envolveu altos custos financeiros, conflitos e debates sobre a viabilidade de manter a biodiversidade. Essa questão foi amplamente discutida na cúpula de biodiversidade da ONU em Yerevan, onde se levantou a questão de quem deve decidir quais espécies merecem ser salvas e quem arca com os custos envolvidos. As comunidades locais e os povos indígenas, que muitas vezes enfrentam as consequências diretas dessas decisões, ainda têm um papel marginal na formulação dessas políticas.
Desafios na conservação
Em 2022, os países firmaram um acordo global para proteger 30% das terras e dos mares do planeta, interromper extinções provocadas pelo ser humano e arrecadar 200 bilhões de dólares anualmente até 2030. Embora o acordo estabeleça diretrizes, não especifica quais espécies devem ser priorizadas, o que deixa as decisões nas mãos das autoridades nacionais e da alocação de recursos.
O caso do condor exemplifica bem esses desafios. A população, que contava com apenas 22 aves em 1982, cresceu para mais de 600, mas não sem críticas sobre os custos envolvidos e as restrições que impactaram comunidades rurais. Além disso, a proibição do uso de munição de chumbo, uma das principais causas de morte por envenenamento, gerou resistência entre grupos de caçadores.
Outro exemplo é o retorno do lobo à Europa, que também trouxe controvérsias. A convivência com a espécie implica custos que muitos pecuaristas não estão dispostos a arcar, resultando em autorizações para a caça em algumas regiões, apesar da existência de fundos da União Europeia para proteger o gado. Na Tanzânia, os indígenas masai enfrentam a pressão para abandonar suas terras, localizadas em áreas de conservação, o que ilustra o custo humano das políticas de conservação.
Outras iniciativas de recuperação
Além do condor, outras espécies, como o lince-ibérico, também passaram por processos de recuperação. O lince, que contava com menos de 100 exemplares em 2002, alcançou 2.663 indivíduos em 2025, embora a UICN ainda o considere vulnerável. Assim como no caso do condor, seu sucesso deve-se em grande parte à reprodução em cativeiro e à reintrodução, mas os atropelamentos continuam a ser uma das principais causas de mortalidade.
O quebra-ossos, que habita os Pireneus, seguiu um caminho semelhante. Após desaparecer da Andaluzia em 1986, ainda há programas de reintrodução em andamento. A recuperação dessa espécie também depende de ações humanas, como patrulhas contra o envenenamento e a criação de comedouros, destacando que salvar uma espécie é apenas parte do processo; a manutenção de condições favoráveis e o envolvimento das comunidades locais são igualmente cruciais.
Decisões difíceis sobre conservação
Essas discussões são fundamentais, pois cerca de um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção. Com orçamentos limitados, é necessário priorizar quais espécies proteger, uma escolha que não é neutra. Estudos mostram que a maioria do financiamento se concentra em apenas cinco grupos de mamíferos, enquanto plantas e invertebrados, essenciais para a polinização, recebem uma fração dos recursos.
Essa realidade serve como um alerta sobre a importância de não negligenciar os polinizadores, que são vitais para a diversidade da flora e a segurança alimentar global.