EUA classificam CV e PCC como ameaça à soberania e ao setor empresarial brasileiro, alertam especialistas
Especialistas discutem implicações da classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA.
A recente decisão do governo americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais gerou um amplo debate entre especialistas em segurança pública.
Segundo análises, essa classificação pode aumentar a capacidade de atuação de órgãos americanos, como o Pentágono e a CIA. Isso facilitaria a destinação de recursos e a justificativa para operações mais assertivas, incluindo ações unilaterais.
Além disso, há preocupações sobre os impactos econômicos e financeiros que essa designação pode ter sobre empresas brasileiras, assim como possíveis tensões diplomáticas e riscos à soberania nacional. O cenário é comparável à relação entre os EUA e o México no combate ao narcotráfico.
Os especialistas afirmam que essa nova classificação não deve afetar diretamente as facções criminosas, podendo, na verdade, ajudá-las. Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência, destacou que já existem protocolos de troca de informações entre a Polícia Federal Brasileira e o FBI, mas a nova medida pode dificultar essa colaboração, uma vez que a CIA não compartilhará mais dados com as autoridades brasileiras.
“Marcola não vai perder uma noite de sono com isso. O PCC e o CV vão continuar fazendo negócios. A pessoa que está no mundo do crime está disposta a correr riscos”, afirma Cerqueira.
Vladimir Aras, professor de direito internacional público, complementa que a rotulação de organizações nem sempre resulta em mudanças efetivas. Ele cita o caso do Talibã no Afeganistão, onde a invasão de potências não conseguiu mudar a situação do governo local.
Oliver Stuenkel, analista de relações internacionais, adverte que a medida pode prejudicar a cooperação entre agências, dificultando o acesso das polícias locais brasileiras a informações cruciais para investigações.
Impacto financeiro
Stuenkel também aponta que a designação de grupos como terroristas pode ter consequências diretas para empresas e instituições financeiras brasileiras, permitindo aos EUA a aplicação de sanções financeiras mais severas.
“O ambiente de negócios pode ser afetado pela insegurança jurídica e pelo receio de investidores e bancos de sofrerem sanções americanas, mesmo sem comprovação de vínculo com o crime organizado”, alerta.
Cerqueira argumenta que empresas que operam com o crime organizado poderiam ser investigadas, caso a troca de informações entre Brasil e Estados Unidos não seja comprometida.
“Muitas empresas podem ser sancionadas, até por relações indiretas. Fica tudo muito suscetível às sanções do governo americano, de forma arbitrária”, afirma.
Roberto Uchoa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que a decisão pode colocar setores do Brasil sob a mira do governo dos EUA, gerando pressão sobre o governo brasileiro e seu sistema financeiro.
“Um ato unilateral desse, o que acontece é que coloca uma pressão sobre o governo brasileiro e sobre o sistema financeiro brasileiro, que passa também possivelmente a ser alvo de sanções”, diz.
Os especialistas alertam que a designação de organizações como terroristas pode justificar ações mais diretas dos EUA, facilitando operações que antes não seriam possíveis em território brasileiro.
“Isso sem dúvida facilita justificativas para operações que talvez hoje não seriam possíveis em território brasileiro”, conclui Stuenkel.
Feliciano Guimarães, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, aponta que essa decisão também provoca mudanças na dinâmica interna dos EUA, permitindo que agências como o Departamento de Estado e o FBI tenham mais instrumentos legais para investigar e punir indivíduos ou entidades ligadas ao PCC e ao CV.
Promessa eleitoral de Trump
Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais, observa que essa medida atende a uma promessa eleitoral de Donald Trump, que visa classificar grupos latino-americanos como terroristas. Ele ressalta que essa classificação pode legitimar ações violentas do Estado em nome do combate ao crime.
Amaral argumenta que Trump combina a retórica da guerra às drogas com a da guerra ao terrorismo, buscando estabelecer uma capacidade de interferência nos movimentos
