Funcionários da Apple celebram jornada de 90 horas semanais em contrariedade à visão da Geração Z sobre trabalho tóxico
A cultura do excesso de trabalho no Vale do Silício e suas consequências atuais.
“90 horas por semana e eu adoro.” Essa frase, que se tornou emblemática entre os primeiros funcionários da Apple, simbolizava um comprometimento quase religioso com o trabalho no Vale do Silício durante a década de 1980. Naquela época, trabalhar longas horas era não apenas esperado, mas celebrado. Jovens profissionais sacrificavam sono, relacionamentos e saúde em nome da ambição de transformar o mundo. Na Apple, sob a liderança de Steve Jobs, a dedicação extrema era quase uma norma.
Atualmente, essa mesma devoção ao trabalho é vista com desdém pela Geração Z. Essa nova geração rejeita a ideia de que a produtividade deve ser medida em horas excessivas ou noites em claro. O conceito de passar a noite no escritório como um benefício é considerado ultrapassado. Para eles, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é fundamental e não está aberto a negociação. O que antes era motivo de orgulho agora se torna alvo de críticas nas redes sociais, especialmente no TikTok. A questão que se levanta é se a indústria realmente mudou ou se apenas a narrativa em torno do trabalho evoluiu.
Jornada de trabalho
O Brasil atualmente debate a possibilidade de reduzir a jornada de trabalho para funcionários que atuam em regime de escala 6×1, uma mudança que poderia beneficiar mais de 12 milhões de trabalhadores do setor privado. Um recente estudo indica que a implementação de uma semana de trabalho de quatro dias pode não apenas aumentar a produtividade, mas também melhorar a saúde física e mental dos funcionários, além de contribuir para a redução das emissões de CO₂. Essa realidade contrasta fortemente com o cenário vivido na Apple nos anos 80, onde jornadas de 90 horas eram a norma para muitos de seus primeiros colaboradores.
Naquela época, a equipe de software do Macintosh, composta majoritariamente por jovens entre vinte e trinta anos, dedicava-se intensamente ao projeto. Sem muitas obrigações familiares, eles estavam dispostos a trabalhar longas horas em nome da paixão pelo que faziam. A pressão para entregar o software a tempo para o lançamento de janeiro de 1984 levou a um aumento significativo nas horas trabalhadas, tornando comum encontrar a equipe em seus cubículos até altas horas da noite.
Éramos apaixonados pelo projeto e estávamos dispostos a dedicar, mais ou menos, o resto de nossas vidas a ele, pelo menos por um tempo. Conforme a pressão aumentava, começamos a trabalhar cada vez mais horas.
As maratonas de testes eram uma prática comum, com competições informais para ver quem encontrava mais bugs ou realizava os testes mais desafiadores. O prêmio era simplesmente a satisfação de um trabalho bem feito. Em um gesto que ressoa com a Geração Z, Debi Coleman, da equipe financeira, decidiu comemorar o esforço coletivo criando uma camiseta que se tornaria icônica.
O moletom, de alta qualidade, exibia o slogan “90 horas por semana e eu adoro”, em homenagem à famosa citação de Steve Jobs. O design incluía um erro ortográfico intencional, com “Mackintosh” escrito de forma errada, conferindo um toque urbano e autêntico. Se esses moletons fossem vendidos hoje, seu valor alcançaria cifras impressionantes, com um exemplar recente sendo leiloado por quase mil dólares.
O moletom, que se tornou um símbolo da época, era tão confortável que até Burrell Smith, um dos colaboradores, começou a usá-lo com frequência. Após deixar a Apple em 1985, ele fez uma alteração no moletom, cobrindo o “9” com fita adesiva, transformando a mensagem em “trabalha zero horas por semana e eu adoro isso”, uma crítica sutil ao estilo de vida extenuante da época.
É importante ressaltar que, nos Estados Unidos, a Lei de Normas Justas de Trabalho exige que trabalhadores não isentos recebam pagamento adicional por horas extras. No entanto, o setor de tecnologia, especialmente nos anos 80, operava em um contexto onde essas regras eram frequentemente ignoradas, alimentando uma cultura de trabalho excessivo que ainda reverbera nos dias de hoje.
