Kant já alertava há 230 anos sobre a turistificação na Europa e a desconsideração pelos proprietários das terras

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Pressão turística em Málaga provoca reações locais e reflexões filosóficas sobre hospitalidade.

Em Málaga, na Espanha, a presença de apartamentos turísticos é visível por toda a cidade, evidenciada por inúmeras plaquinhas azuis com as letras “AT”. Este fenômeno, que se intensificou nos últimos anos, gera um crescente debate sobre os impactos do turismo na vida local.

As reações da população são diversas e podem ser vistas em adesivos colados nas placas, que expressam descontentamento com frases como “AnTes esta era minha casa” e “Prefeito Turismorto”. Esses protestos refletem a frustração dos moradores em relação à transformação de seus lares em espaços turísticos.

O filósofo Immanuel Kant, conhecido por sua rotina metódica e por não ter se envolvido em revoluções, oferece uma perspectiva interessante sobre o conceito de hospitalidade. Em sua obra “Sobre a Paz Perpétua”, ele discute a ideia de que o estrangeiro deve ser tratado com respeito, desde que venha em paz, mas enfatiza que isso não lhe confere o direito de remodelar o lugar que visita.

Onde começa o problema

O verdadeiro dilema surge quando se considera que a hospitalidade não deve ser uma justificativa para a exploração e a reestruturação de um espaço em benefício de visitantes. Kant critica a conduta inóspita das potências ocidentais, que tratavam terras alheias como se não tivessem dono, ignorando os direitos dos habitantes locais.

A filósofa Lea Ypi, ao atualizar o conceito kantiano de colonialismo, argumenta que o problema não reside na origem dos visitantes, mas nas dinâmicas que criam desigualdade entre eles e os moradores. Essa reflexão é crucial para entender as tensões geradas pela turistificação nas cidades.

A turistificação não é problemática apenas por aumentar o número de visitantes, mas porque altera a estrutura urbana de forma a beneficiar os turistas, muitas vezes em detrimento dos residentes. Esse fenômeno resulta na expulsão dos moradores, que veem suas comunidades transformadas em destinos turísticos.

O verdadeiro problema não é a chegada de imigrantes que buscam integrar-se e fortalecer a comunidade, mas sim aqueles que a exploram em benefício próprio, gerando assimetrias nas relações econômicas. A teórica Margaret Moore destaca que a definição de “residentes” não se limita a quem nasceu em um lugar, mas abrange aqueles cuja vida está entrelaçada com a comunidade.

Embora alguns moradores se beneficiem financeiramente da turistificação, essa colaboração não exime a responsabilidade que têm para com a coletividade. A exploração desenfreada de propriedades em áreas residenciais, transformando-as em locais inabitáveis para os residentes, demonstra uma falta de consideração pelas obrigações sociais.

Portanto, a questão central não é quem está presente, mas sim o que está sendo feito com o espaço e como isso afeta a comunidade local. Essa distinção, embora sutil, é vital para compreender as falhas da turistificação e suas consequências.

Refletir sobre essas questões, mesmo à luz de um pensamento desenvolvido há mais de duzentos anos, continua sendo relevante e necessário nos dias atuais.

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