Mudanças no chocolate consumido no Brasil podem pôr fim ao uso de produtos falsificados
Nova regulamentação pode melhorar a qualidade do chocolate no Brasil.
A proposta de nova regulamentação para o chocolate no Brasil visa aumentar a transparência e a qualidade dos produtos disponíveis no mercado.
De acordo com a nova legislação, o percentual de cacau deverá ser destacado nas embalagens, e os percentuais mínimos exigidos por lei foram redefinidos. A exigência agora é de pelo menos 35% de sólidos totais para chocolates em geral e 25% para chocolates ao leite.
Atualmente, para um produto ser considerado chocolate no Brasil, é necessário apenas 25% de sólidos totais de cacau, um padrão inferior ao exigido em outras regiões, como na União Europeia, onde o mínimo é de 35% para chocolates em geral e 30% para versões ao leite.
Com a aprovação no Congresso, a nova regulamentação também especifica o que conta como “sólidos de cacau” e estabelece limites para substituições. Pelo menos 18% dos sólidos devem ser de manteiga de cacau e 14% de componentes isentos de gordura, além de um teto de 5% para outras gorduras vegetais.
O projeto, que agora segue para o Senado, responde a uma demanda antiga dos consumidores, que frequentemente reclamam da baixa qualidade dos chocolates industrializados, considerados por muitos como “pura gordura e açúcar”. A discussão agora se concentra em como as novas regras serão efetivamente implementadas e fiscalizadas.
Especialistas apontam que a percepção de que o chocolate tem piorado reflete problemas como a baixa qualidade do cacau utilizado e as mudanças nas composições dos produtos ao longo das décadas, que visam à redução de custos.
Outro fator que contribui para essa percepção é o aumento de produtos rotulados como “sabor chocolate”, que contêm menos de 25% de cacau, sendo comuns em biscoitos e bombons de marcas conhecidas, que não utilizam chocolate verdadeiro em suas coberturas.
‘Sim, o chocolate piorou’, diz especialista
Especialistas afirmam que a qualidade do chocolate realmente diminuiu. A engenheira de alimentos Luciana Monteiro, que atua na área há anos, confirma que mudanças nos processos de produção e insumos utilizados ao longo do tempo contribuíram para essa degradação.
A crise que afetou as fazendas de cacau na Bahia há quatro décadas, devido a uma praga, resultou em uma queda drástica na produção. O Brasil, que já foi o segundo maior produtor mundial de cacau, hoje ocupa a sexta posição, com cerca de 300 mil toneladas anuais.
Enquanto isso, países como Costa do Marfim e Gana, que juntos produzem milhões de toneladas de cacau, enfrentam quedas na produção, o que impacta os preços no mercado global.
A qualidade do cacau brasileiro piorou significativamente, em parte devido à falta de incentivos para a produção de cacau de alta qualidade. A indústria, em busca de reduzir custos, tem utilizado ingredientes de menor qualidade.
Além disso, a manteiga de cacau, essencial para a textura do chocolate, está sendo substituída por gorduras vegetais mais baratas, o que afeta o sabor e a qualidade do produto final.
Como identificar bons chocolates?
Zélia Frangioni, especialista em chocolate, observa que a concorrência no mercado brasileiro e a demanda por produtos mais baratos têm levado as empresas a produzir chocolates cada vez mais doces e de menor qualidade. No entanto, também há um aumento na oferta de chocolates de alta qualidade, que seguem métodos de produção mais rigorosos.
Esses chocolates, que utilizam menos ingredientes substitutos, são feitos com cacau de melhor qualidade, refletindo em seu sabor e textura. Contudo, o preço desses produtos é significativamente mais alto, o que pode ser um obstáculo para muitos consumidores.
Frangioni recomenda que os consumidores leiam os rótulos dos produtos para identificar a qualidade do chocolate. O cacau deve ser um dos principais ingredientes, e o açúcar não deve ser o primeiro na lista. Chocolates de qualidade não contêm aromatizantes, pois um bom cacau não necessita de realçadores de sabor.
A nutricionista Mariana Ribeiro destaca que o consumo excessivo de chocolate, especialmente de produtos ultraprocessados, pode ser prejudicial à saúde. Portanto, é importante que os consumidores sejam críticos em relação ao que estão comprando, especialmente em relação a produtos que se apresentam como chocolate, mas que na verdade são apenas sabor chocolate.
Em resposta às críticas,
