Nova geração rejeita filosofia do provérbio chinês sobre o valor da amargura e do doce
Desafios enfrentados por jovens no mercado de trabalho na China e no Brasil
Entrar no mercado de trabalho é uma tarefa complexa para os jovens em diversas partes do mundo. No Brasil, pesquisas indicam que pessoas entre 18 e 29 anos ainda enfrentam dificuldades significativas para conseguir emprego, além de receberem salários menores e estarem mais expostas à informalidade.
Na China, a situação é ainda mais preocupante, com um número recorde de recém-formados competindo em um mercado que não consegue absorver tantos profissionais qualificados. O presidente Xi Jinping, diante desse cenário, tem utilizado um provérbio chinês que enfatiza a importância de aprender a enfrentar dificuldades. No entanto, essa mensagem tem gerado críticas entre os jovens, que se sentem cada vez mais pressionados em um mercado de trabalho restrito.
A dificuldade para conseguir o primeiro emprego não é exclusiva do Brasil. Na China, milhões de estudantes se formam anualmente e entram em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo. A combinação de uma economia em desaceleração, transformações no mercado e o avanço da inteligência artificial tem reduzido as oportunidades para os novos profissionais. Enquanto isso, o número de graduados continua a crescer, intensificando a concorrência.
Os fatores que contribuem para esse cenário incluem um número recorde de formandos, com cerca de 12,7 milhões de estudantes se formando neste ano, e a escassez de vagas para profissionais iniciantes. Muitos recém-formados relatam ter que enviar centenas de currículos antes de conseguir uma única entrevista. Além disso, as mudanças no perfil das empresas têm deslocado o foco de áreas como artes e humanidades para setores mais tecnológicos, como inteligência artificial e robótica.
Outro aspecto preocupante é a automação, que tem substituído muitas funções de entrada, tradicionalmente ocupadas por jovens. Isso resulta em empregos mais precários, levando graduados a migrar para a economia “gig”, realizando trabalhos temporários ou em áreas distantes de sua formação para garantir alguma renda.
Esse cenário tem gerado frustração entre os jovens, que, após anos de investimento em educação, se deparam com um mercado que oferece salários baixos, jornadas longas e poucas perspectivas de crescimento profissional.
O presidente Xi Jinping tem promovido um antigo ditado popular, “comer amargura”, que sugere que suportar dificuldades é essencial para alcançar resultados melhores no futuro. Essa mensagem, no entanto, não tem sido bem recebida por muitos jovens, que argumentam que a dificuldade atual não se deve apenas à falta de dedicação, mas a mudanças estruturais na economia.
Para muitos, essa abordagem parece transferir a responsabilidade pela escassez de oportunidades para os trabalhadores, em vez de reconhecer as falhas do sistema. A situação é ainda mais complexa, pois muitos dos empregos sugeridos pelo governo são aqueles que as gerações anteriores tentaram evitar ao investir na educação dos filhos, como os subempregos.
Para uma geração que acreditou que um diploma universitário seria o caminho para a ascensão social, aceitar ocupações de baixa remuneração ou fora da área de formação representa um abandono de um sonho cuidadosamente construído ao longo da vida.
