Pecuaristas buscam novos mercados e aceleram exportações antes do veto da União Europeia após anos de investimentos para atender o continente
Setor pecuário brasileiro se mobiliza diante do embargo da União Europeia
Os pecuaristas Rafael Andrade Asato e André Bartocci, de Mato Grosso do Sul, expressam a frustração do setor com a iminente interrupção das compras de produtos de origem animal pela União Europeia.
Embora o bloco represente apenas 5,8% do valor total exportado de carne bovina pelo Brasil, na propriedade de Asato e Bartocci, 100% do rebanho é criado para atender às exigências europeias. A interrupção das exportações está prevista para começar em 3 de setembro, e mesmo que a UE retome as compras, as exportações não voltarão a ocorrer imediatamente.
O embargo é um reflexo das exigências rigorosas da União Europeia em relação ao uso de antimicrobianos, substâncias utilizadas para tratar e prevenir infecções em animais. O uso de antimicrobianos como promotores de crescimento é proibido pela legislação europeia, e o ciclo de vida do gado pode levar até dois anos para se adequar a novos padrões.
Asato e Bartocci, que já não utilizam antimicrobianos em seus rebanhos devido à exportação pela Cota Hilton, um regime que proíbe essas substâncias, estão preocupados com as consequências do embargo. Bartocci, que preside a Câmara Setorial da Carne Bovina, afirma que a Europa não voltará a comprar carne do Brasil antes de dois anos, o que gera incertezas para o futuro do setor.
A União Europeia é a terceira maior compradora de carne bovina brasileira, com importações que totalizam US$ 1,6 bilhão. Em comparação, a China, principal destino do produto, importa 5,5 vezes mais, totalizando US$ 8,8 bilhões. O preço médio pago pela carne bovina na China é de US$ 6,50 por quilo, enquanto a União Europeia desembolsa cerca de US$ 10 pelo mesmo volume.
Desde o anúncio do embargo, o governo brasileiro tem negociado com os europeus para reverter a decisão. O Ministério da Agricultura criou novas regras para atender às exigências do bloco, mas até agora não houve retorno favorável. Os exportadores precisam agir rapidamente para embarcar suas carnes antes do dia 3 de setembro.
Asato destaca a urgência de vender seus animais até 21 de agosto para garantir o prêmio pago pelo boi padrão Europa, que pode chegar a até 10% a mais em relação ao preço nacional. As normas rigorosas para exportação para a Europa incluem a rastreabilidade individual de cada animal, com o uso de chips para monitorar sua saúde e manejo.
Enquanto isso, os pecuaristas estão redesenhando suas estratégias para minimizar os impactos do embargo. Asato está em contato com frigoríficos para garantir que seu gado padrão europeu possa ser direcionado a mercados alternativos, como os Estados Unidos ou o mercado interno de carnes nobres.
Bartocci, por sua vez, planeja manter os protocolos de rastreabilidade por pelo menos seis meses, enquanto observa o andamento das negociações. Ele considera desacelerar o ciclo de produção para esperar a reabertura do mercado europeu e, se necessário, cogita voltar a utilizar antimicrobianos para aumentar a produtividade.
Ambos os pecuaristas expressam frustração com a decisão da UE, que acreditam ter motivações políticas, além das questões sanitárias. A medida é vista como um obstáculo em um momento em que o Brasil buscava ampliar seu acesso a mercados internacionais, especialmente considerando que a presença no mercado europeu é um selo de qualidade para outros mercados de elite.
Por fim, Asato questiona a lógica da UE em manter países com normas menos rigorosas como fornecedores de carne, enquanto impõe restrições ao Brasil, um dos principais produtores do mundo.