União Europeia aumenta gastos com carne bovina brasileira, mas volume de compras permanece baixo e abre oportunidades para novos mercados
União Europeia suspende importações de carne bovina do Brasil a partir de setembro.
Em uma decisão significativa, a União Europeia (UE) excluiu o Brasil da lista de países que atendem às suas normas sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. Essa medida, que entra em vigor no dia 3 de setembro, terá um impacto considerável nas exportações brasileiras de produtos de origem animal.
A UE representa apenas 3,7% do volume total de carne bovina exportada pelo Brasil, mas sua importância vai além dos números. O bloco europeu é conhecido por comprar cortes nobres, funcionando como uma “vitrine” que atesta a qualidade dos produtos brasileiros no mercado global. Especialistas afirmam que atender às exigências da UE é visto como um selo de qualidade, facilitando o acesso a outros mercados.
“A Europa é uma vitrine seja por causa das exigências em termos de rastreabilidade, seja pela remuneração. Ela compra praticamente só cinco cortes do nosso boi, só que paga bem”, observa um especialista do setor.
Enquanto a China paga, em média, US$ 6,50 pelo quilo da carne bovina brasileira, a União Europeia desembolsa cerca de US$ 10 pelo mesmo volume. A preferência europeia recai sobre cortes do traseiro do boi, como filé mignon e contrafilé, com o restante sendo comercializado no mercado interno.
Desafios e complexidade do mercado europeu
O Brasil, como maior produtor e exportador de carne bovina do mundo, segue padrões sanitários rigorosos para atender a diversos mercados. No entanto, o processo de habilitação para exportar para a UE é mais complexo, limitando a autorização de exportação a apenas alguns estados brasileiros.
As fazendas interessadas em exportar devem passar por uma avaliação da UE, que verifica se cumprem os requisitos sanitários e de bem-estar animal. Além disso, cada boi deve ser rastreado individualmente, o que eleva os padrões de produção.
“Se um país recebe o aval para exportar para a Europa, ele está recebendo um certificado de alto padrão regulatório”, comenta um analista do setor.
Com mais de 20 anos de experiência no mercado europeu, um pecuarista de Mato Grosso do Sul expressa sua preocupação com a possibilidade de o bloqueio desestimular outros produtores a manter os altos padrões de rastreabilidade exigidos pela UE.
Alternativas e novos mercados
Com a suspensão das importações, os pecuaristas estão buscando alternativas para negociar seus produtos. Um deles sugere encaixar o gado de padrão europeu em programas de exportação para os EUA ou em protocolos voltados para o consumo interno.
Se o mercado não oferecer um valor adicional pela carne de qualidade superior, muitos produtores podem optar por abandonar os protocolos europeus, uma vez que os custos de rastreabilidade não são compensados por um prêmio no preço.
Além disso, mesmo que a UE reabra suas portas para as exportações brasileiras, o processo de reabilitação pode ser demorado, exigindo comprovações rigorosas sobre o uso de antimicrobianos nos rebanhos.
“Um bezerro que nascer em agosto ou setembro de 2026, por exemplo, só vai estar pronto para o abate por volta de 2028 ou início de 2029”, explica um especialista do setor.
Impacto no mercado interno
A suspensão das importações da UE ocorre em um momento delicado, pois o Brasil também enfrenta cotas de exportação impostas pela China, seu maior comprador. O primeiro semestre de 2023 foi marcado por uma aceleração das exportações para a China, e a expectativa era de um aumento nas vendas para a UE no segundo semestre.
Com a perda de ambos os mercados, a oferta de carne no Brasil deverá aumentar, o que pode levar a uma queda nos preços dos cortes nobres que tradicionalmente eram enviados para a Europa.
“Os cortes mais nobres que tradicionalmente vão para a União Europeia podem ficar mais baratos”, afirma um analista do setor.
Apesar do aumento da oferta, a transição do ciclo pecuário no Brasil pode limitar quedas acentuadas nos preços, já que a oferta de animais para abate está