Religião tem papel relevante, mas não é a única explicação
A influência dos evangélicos no cenário eleitoral brasileiro é complexa e multifacetada.
A cada nova pesquisa eleitoral, surge a questão sobre como os evangélicos votam no Brasil. Segundo o último Censo Demográfico, os evangélicos representam 26,9% da população, cerca de 47,4 milhões de pessoas, e continuam a crescer. Enquanto isso, os católicos, que ainda são a maioria, somam 56,7%, totalizando aproximadamente 100,2 milhões de brasileiros, o menor percentual já registrado na história do país.
Esses dados costumam levar a uma interpretação simplista de que existe um “voto evangélico” homogêneo e determinante. No entanto, a realidade é muito mais complexa e diversa.
Uma pesquisa nacional recente ajuda a elucidar este cenário. Entre os evangélicos, Flávio Bolsonaro aparece com 44% das intenções de voto, enquanto Lula registra 28%. Entre os católicos, a situação se inverte, com Lula liderando com 44% e Flávio Bolsonaro com 31%. Em cenários de segundo turno, Lula amplia sua vantagem entre os católicos (50% a 37%), enquanto Flávio cresce entre os evangélicos (54% a 33%).
Esses dados revelam diferenças significativas entre os segmentos religiosos, mas não permitem concluir que a religião, por si só, define o voto.
A cientista política Ana Carolina Evangelista, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, destaca que não existe um único “voto evangélico”. O eleitorado evangélico é extremamente heterogêneo, composto por diversas denominações, níveis de renda, escolaridade, regiões do país e orientações políticas. A religião é uma variável importante, mas não a única que influencia o voto.
Os dados do IBGE também mostram que a geografia religiosa do Brasil é bastante diversa. O catolicismo é mais forte no Nordeste, onde representa 63,9% da população, e no Sul, com 62,4%. Por outro lado, os evangélicos têm uma presença proporcionalmente maior nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde seu crescimento foi mais acentuado nas últimas décadas.
Ao cruzar esse mapa religioso com os resultados eleitorais, surgem conexões interessantes. Lula tem seu melhor desempenho no Nordeste, com 52% das intenções de voto no primeiro turno, e lidera também no Norte, com 45%. Flávio Bolsonaro, por sua vez, se destaca no Sul, onde registra 36%, quase empatado com Lula (37%), e apresenta seus melhores resultados no Centro-Oeste, onde lidera em cenários de segundo turno.
Essas correlações, no entanto, não significam que a religião explique isoladamente o comportamento político dessas regiões. O Nordeste, apesar de majoritariamente católico, é influenciado por fatores históricos, econômicos e sociais que explicam a força eleitoral de Lula. Da mesma forma, Norte e Centro-Oeste, com um eleitorado evangélico maior, possuem características econômicas e culturais que se alinham a pautas defendidas pela direita.
A literatura sobre comportamento eleitoral indica que o voto é resultado de uma combinação de diferentes fatores, incluindo identidade religiosa, renda, escolaridade, idade, gênero, local de residência e posicionamento ideológico. Essa interação torna o eleitor brasileiro muito mais complexo do que qualquer classificação simplificada.
Embora a religião tenha um papel importante na política, especialmente nas últimas três décadas, com diversas denominações evangélicas investindo em organização institucional e representação política, isso não é suficiente para definir uma eleição presidencial.
A pesquisa também revela que Lula é visto como o candidato mais preparado para administrar a economia, liderando esse indicador por 35% a 31% sobre Flávio Bolsonaro. Em segurança pública e combate à corrupção, o cenário é mais equilibrado, indicando que diferentes temas mobilizam diferentes segmentos do eleitorado.
Outro ponto relevante é que o crescimento do eleitorado evangélico está desacelerando. Projeções demográficas sugerem que uma eventual ultrapassagem dos evangélicos sobre os católicos deve ocorrer apenas por volta de 2049. Assim, o Brasil continuará sendo um país de maioria católica, embora cada vez mais plural em termos religiosos.
Essa pluralidade representa um desafio crescente para os candidatos. Nenhum projeto eleitoral consistente poderá se dirigir apenas a um segmento religioso. Será necessário dialogar com um país diverso, onde religião, economia, segurança, valores, identidade política e expectativas de futuro se influenciam mutuamente.
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