Vendas em alta e lucros em baixa: o paradoxo que impede o crescimento das empresas
Empresas brasileiras enfrentam desafios ao planejar crescimento sem gestão adequada.
Oitenta e seis por cento das empresas brasileiras projetam aumento de receita em 2026, segundo um estudo recente. Embora o número seja animador, ele revela uma contradição significativa: o crescimento em faturamento sem o correspondente crescimento em gestão pode resultar em um aumento do trabalho e uma redução nos lucros.
A operação torna-se mais cara e a rotina mais caótica, levando a uma liderança que reage constantemente, sem tempo para organizar as decisões necessárias. O resultado desse cenário é um aumento no retrabalho, pressão no caixa, equipe desgastada e uma movimentação intensa que não se traduz em avanços reais.
Uma análise feita pela Confederação Nacional dos Contadores identificou que pendências acumuladas do ano anterior permanecem como um dos maiores obstáculos para os negócios em 2026, afetando desde a emissão de documentos até rotinas fiscais e trabalhistas. Esse problema, embora não seja novo, se manifesta de maneiras diferentes a cada ciclo.
Confundir planejamento com execução
Flávio Lettieri, mentor de líderes com mais de 30 anos de experiência, destaca que um dos principais erros nas empresas é acreditar que ter uma direção clara é suficiente para o sucesso.
“Há uma grande diferença entre o que a empresa decide e o que consegue executar na prática. Muitos ainda pensam que ter uma estratégia é o bastante. Se a liderança não consegue transformar decisões em rotinas, prioridades e acompanhamento, a estratégia falha antes de chegar à operação,” afirma Lettieri.
Ele também menciona a cultura da urgência disfarçada de produtividade. “Atualmente, muitas empresas enfrentam um excesso de metas, reuniões e urgências, mas com pouca clareza operacional. Quando tudo se torna prioridade, nada é executado com eficácia, resultando em desgaste da equipe e retrabalho,” explica.
Faturamento sobe, margem cai
A lógica do crescimento sem gestão adequada se reflete nas finanças. Lucas Oliveira, da LCS Contabilidade, observa que muitos negócios operam sob a falsa premissa de que um aumento na receita é sinônimo de saúde empresarial.
“Muitas empresas não têm problemas nas vendas, mas sim na estrutura. O empresário vê o aumento do faturamento como um sinal de evolução, sem perceber que a operação se torna mais cara e confusa,” comenta Oliveira.
Falta de clareza nos processos, rotinas financeiras frágeis e baixa integração entre as áreas criam um ambiente onde a empresa pode crescer comercialmente, mas perde eficiência. Essa desorganização não se manifesta de forma abrupta, mas se acumula ao longo do tempo.
“A desorganização é drenada dia a dia, em atrasos, erros, retrabalho e aumento de custos operacionais. Quando o empresário se dá conta, já está trabalhando mais, faturando mais e lucrando menos,” resume Oliveira.
Dados do IBGE sobre demografia empresarial corroboram esse cenário, evidenciando a vulnerabilidade de empresas que crescem sem consolidar processos e gestão.
O risco jurídico que ninguém vê no começo nas empresas
A falta de gestão organizada também cria vulnerabilidades jurídicas, que tendem a se manifestar quando a empresa já está maior e mais exposta, tornando a correção mais custosa.
Adriana Barros, advogada empresarial, observa que um erro comum em empresas em expansão é priorizar vendas antes de estruturar a base de decisões do negócio.
“Muitas empresas focam em vendas sem revisar contratos sociais, alinhar papéis entre sócios ou formalizar regras de governança. Isso pode funcionar temporariamente, mas geralmente resulta em altos custos posteriormente,” afirma Barros.
Segundo ela, a ausência de uma estrutura jurídica adequada não é percebida no início, mas se torna evidente quando surgem divergências ou mudanças significativas no negócio. “Quando a empresa cresce sem governança, os problemas aparecem à medida que a complexidade aumenta, com mais pessoas e mais dinheiro em jogo,” alerta.
Barros enfatiza que muitos empresários veem a estrutura jurídica como burocracia, quando na verdade é uma proteção essencial para o crescimento. “Blindagem jurídica não é excesso de formalidade; é o que impede o crescimento de se tornar uma fragilidade,” conclui.</
